Entrevista com Gustavo Machado


Gian Danton

Gustavo Machado foi um dos mais importantes desenhistas da Grafipar e, com o fim da editora, trabalhou, entre outras editoras, para a Abril, onde fez a antológica graphic trapa Didi volta para o futuro, vencedora de vários prêmios. Abaixo seu depoimento sobre os tempos da Grafipar.

Comecei a desenhar profissionalmente em 1977, fazendo parte da equipe de criação que produzia o gibi ¨Sítio do Pica-Pau Amarelo¨ no Rio Gráfica e Editora (RGE). Minhas primeiras histórias saíram no número 1 em março do mesmo ano.

Pelo custo de vida da época, nós, quadrinistas , tínhamos que produzir muito para viver decentemente, ou seja, a maioria tinha um padrão de vida básico (casa alugada, sem telefone e carro). Os quadrinhos sempre foram pagos por página e para se ter alguma idéia, em novembro de 1979 recebi Cr$ 480,00 por página pela 1ª. HQ para a Grafipar com o título ¨Aula Particular¨.

Quando começou, a Grafipar pagava em dia. Porém, em meados de 1980 começaram a haver atrasos nos pagamentos, o que muito me preocupava, uma vez que eu havia me mudado para Curitiba na condição de desenhista exclusivo. Lembro de ter feito uma HQ ilustrando minha situação com o título”DURO”.

Apesar de meus pais me apoiarem muito, quando comecei a fase “erótica” eu não tinha muita liberdade para falar de meu trabalho. Eles respeitavam mas nunca se mostraram interessados em ver alguma revista minha.

A Grafipar realizou duas grandes reuniões, sendo a primeira em novembro/79, na qual não compareci, somente alguns quadrinistas de S. Paulo, mas a semente ficou plantada. Por ocasião da segunda reunião, eu já colaborava regularmente, juntamente com alguns amigos do Rio como o Itamar, Watson, Bonini e Jordi. Viajamos todos no mesmo ônibus para Curitiba (1000 KM) e ali encontramos com os outros como o Veneza e o grande Shimamoto.

A segunda reunião aconteceu em 19 de abril de 1980. Ali, o Faruk (dono da Grafipar) e o Cláudio Seto se comprometeram, sem meias palavras, a garantir uma cota de quadrinhos (produção) digna a quem se dispusesse a morar em Curitiba. O clima foi o melhor possível.
Cheio de expectativas, voltamos todos na noite do mesmo dia para o Rio e S. Paulo. Tanto eu como o Watson e Bonini fizemos a viagem de volta já fisgados pelo convite. Um mês depois os dois se mudaram com família e tudo para Curitiba e, eu fui no mês seguinte, em junho de 1980. O Itamar já morava lá também.

A vila dos quadrinistas começou assim: O Watson e o Bonini foram para Curitiba logo após a segunda reunião, aliás, dividiram o mesmo caminhão de mudanças! O Seto sempre foi um grande amigo e tratou de acomodá-los, arrumando uma casa no bairro Três Marias, que era parte do bairro São Brás, onde ele morava, As duas famílias ficaram provisoriamente numa casa de três quartos. O Watson com a mulher e três filhas e o Bonini com a mulher e um filho. Logo depois vagou a casa ao lado e o Bonini foi pra lá, acolhendo o Itamar, que era sozinho. Um mês depois, eu chego e me instalo na casa do Bonini. Como eu era solteiro, juntamente com o Itamar alugamos uma casa de fundos no bairro das Mercês. Dois meses depois, vagou uma casa atrás da casa do Watson e nós dois fomos pra lá. Alguns meses depois, vagou uma casa ao lado da nossa e o Franco com a mulher e filho foram pra lá. Nesta época, o Bonini se separou da mulher e voltou para o Rio e o Itamar mudou-se, sozinho, para a casa deles. Assim ficamos até 1983, Franco, Itamar, Watson e eu formando a vila dos quadrinistas.


O clima da “vila” era fantástico ( mesmo descontando o saudosismo): o muro entre a minha casa e a do Watson era passagem obrigatória para todos, quase que diariamente. Quantas vezes da janela do meu quarto-estúdio via o Franco pulando com um monte de material pra casa do Watson e vice-versa! Fazíamos churrascos (tenho fotos), rodinhas de violão com o Watson aranhando uns Roberto Carlos e muito papo de muro... Franco e Watson com as mulheres se reuniam para um baralhinho. Certa vez, eu e Watson pegamos um gravador estéreo do Franco e fizemos uma fita só com palhaçadas. Era a ZYV (de viado) Rádio Difusora de Cu Alegre. Franco e Bonini (que havia voltado do Rio) se entusiasmaram e num sábado, passamos o dia todo “produzindo” uma programação da Rádio. Tenho essa gravação até hoje e guardo com o maior carinho. O Seto estava sempre por lá (morava perto) para trocarmos idéias, ou pra pegar ou levar material e também quebrava nossos galhos porque só ele tinha telefone e carro. Levava os visitantes que apareciam pra nos conhecer e muitas vezes os hospedamos. E tenho tantas lembranças desta época que renderia um livro.

Quantos aos colegas que você me pergunta, infelizmente não tenho notícias de nenhum deles.

O melhor período da Grafipar, para mim, foi todo o tempo em que vivi em Curitiba.
Quanto à tiragem, lembro de alguns títulos como “quadrinhos eróticos” e “Sexo em quadrinhos” que chegaram a ter entre 30 a 40 mil exemplares, na fase áurea.

Difícil dizer porque a Grafipar acabou. Acredito que além dos fatores externos como a inflação ou até o desgaste natural das publicações do gênero, houveram fatores internos como investimentos em outras publicações que não deram certo. Deixaram de investir em quadrinhos que foi a “galinha de ovos de ouro” da Grafipar. Quem deve estar mais por dentro desses fatores é o Franco ou o Seto.

Ainda morando em Curitiba, fui procurar outros trabalhos porque o sistema de cotas garantidas estava agonizando e haviam amigos com famílias. O Seto sempre se esforçou para garantir trabalho suficiente para todos e como eu era solteiro, achei por bem abrir mão de minha cota (num certo momento, cheguei a ser o único desenhista exclusivo) e procurar outras alternativas. Acabei sendo contratado por uma agência de publicidade (Exclam), o que foi positivo, pois ganhei experiência nessa área e continuei ocasionalmente desenhando para a Grafipar.

Mas o sonho havia acabado! No final de 82, o Franco nos incentivou a procurar trabalho em S.Paulo. Viajamos juntos com o Bonini e Watson, para fazermos contatos. Franco acabou voltando para S. Paulo, Bonini para o Rio e no início de 1983, consegui um emprego num estúdio de animação ( um sonho antigo) e durante meio ano fiquei morando em S. Paulo e voltando pra Curitiba nos fins de semana. Watson continuou com a Grafipar e Itamar virou pintor. Em junho de 83 mudei-me definitivamente para S.Paulo e o Watson foi logo depois. Havia acabado a “era Grafipar”...

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